É natural que crianças e adolescentes passem por fases de mudanças emocionais e comportamentais. Nem toda birra, medo, tristeza ou dificuldade de relacionamento significa que precisam de terapia. O mais importante é observar a intensidade, a frequência, a duração e o impacto dessas manifestações na vida da criança.
Quando pode ser apenas uma fase?
Quando a criança apresenta mudanças passageiras, geralmente relacionadas a situações específicas, mas continua conseguindo brincar, aprender, conviver e estabelecer vínculos. Além disso, costuma recuperar seu equilíbrio emocional com o acolhimento e o apoio dos adultos.
Quando é importante procurar ajuda profissional?
Alguns sinais merecem atenção:
· Mudanças persistentes de comportamento: irritabilidade, agressividade, isolamento ou tristeza frequente.
· Dificuldades nas relações: conflitos constantes, dificuldade de fazer amigos ou afastamento das pessoas.
· Sofrimento emocional: medos intensos, ansiedade, insegurança ou choro excessivo.
· Alterações na rotina: dificuldades de sono, alimentação ou recusa frequente de ir à escola.
· Dificuldades para lidar com frustrações: reações muito intensas, descontrole emocional ou dificuldade de recuperar a tranquilidade.
· Perda de interesse: deixa de gostar de atividades e brincadeiras que antes lhe davam prazer.
Três perguntas que podem ajudar
1. Esse comportamento está se repetindo ou se intensificando?
2. Está causando sofrimento à criança ou prejudicando suas relações e atividades?
3. Mesmo com acolhimento, diálogo e apoio familiar, a dificuldade permanece?
Se as respostas forem frequentemente positivas, vale procurar uma avaliação psicológica. Não é necessário esperar que a situação se agrave para buscar orientação.
A terapia não é apenas para tratar problemas. Ela também pode oferecer à criança um espaço seguro para expressar sentimentos, desenvolver recursos emocionais, fortalecer sua autonomia e construir relações mais saudáveis.
Na infância, o brincar, o corpo e as relações são importantes caminhos de expressão. Muitas vezes, aquilo que a criança ainda não consegue comunicar em palavras aparece em suas atitudes e brincadeiras.
Se houver comportamentos de risco, automutilação ou falas sobre querer morrer, procure ajuda profissional imediatamente, sem esperar para observar se é uma fase.
Para responder a essas três perguntas, é importante observar não apenas o comportamento da criança, mas também o que acontece antes, durante e depois de suas manifestações emocionais. Um comportamento isolado não define a necessidade de terapia. O que merece atenção é como a criança está vivendo suas dificuldades e quais recursos encontra para lidar com elas.
1. Esse comportamento está se repetindo ou se intensificando?
Observe se existem mudanças na frequência, na intensidade e na duração das reações.
Sinais que merecem atenção:
· Crises de choro, raiva ou irritabilidade cada vez mais frequentes.
· Reações desproporcionais diante de pequenas frustrações.
· Medos ou inseguranças que parecem aumentar.
· Dificuldade crescente para aceitar limites, esperar ou compartilhar.
· Comportamentos de isolamento ou dependência excessiva dos adultos.
· Repetição de atitudes agressivas consigo mesmo, com outras pessoas ou objetos.
· Maior dificuldade para recuperar a tranquilidade depois de situações emocionalmente intensas.
O que observar: o comportamento acontece apenas em situações específicas ou está aparecendo em diferentes ambientes, como casa, escola e encontros familiares?
Também é importante considerar a idade e o momento de desenvolvimento da criança.
2. Está causando sofrimento à criança ou prejudicando suas relações e atividades?
Nem sempre o sofrimento infantil aparece em palavras. Muitas vezes, ele se expressa pelo corpo, pelo brincar e pela maneira como a criança estabelece relações.
Sinais que merecem atenção:
· Deixa de participar de brincadeiras ou atividades de que gostava.
· Apresenta dificuldade persistente para brincar e interagir com outras crianças.
· Demonstra tristeza, insegurança ou preocupação frequente.
· Evita situações sociais por medo, vergonha ou ansiedade.
· Apresenta dores de barriga ou de cabeça recorrentes, sem causa identificada.
· Tem alterações importantes no sono ou na alimentação.
· Demonstra sofrimento intenso ao se separar dos pais ou responsáveis.
· Encontra dificuldades para acompanhar a rotina escolar ou participar das atividades coletivas.
O que observar: a criança consegue experimentar momentos de alegria, curiosidade, espontaneidade e prazer nas relações? Ou suas dificuldades estão limitando progressivamente essas experiências?
É importante lembrar que algumas crianças expressam o sofrimento de maneira mais silenciosa, tornando-se excessivamente obedientes, retraídas ou evitando manifestar suas necessidades.
3. Mesmo com acolhimento, diálogo e apoio familiar, a dificuldade permanece?
A forma como a criança responde ao apoio dos adultos oferece informações importantes sobre suas necessidades emocionais.
Sinais que merecem atenção:
· Mesmo sendo acolhida, permanece frequentemente angustiada ou insegura.
· Necessita constantemente da presença do adulto para sentir-se protegida.
· Apresenta dificuldade para se reorganizar emocionalmente após conflitos.
· Repete comportamentos que parecem expressar sofrimento, mesmo quando recebe atenção e compreensão.
· Não consegue comunicar o que sente, nem por palavras nem por outras formas de expressão.
· Apresenta dificuldades persistentes para aceitar limites, mesmo quando são estabelecidos com clareza, respeito e consistência.
· Demonstra pouca evolução na capacidade de lidar com frustrações e desafios cotidianos.
O que observar: quando o adulto acolhe, escuta, oferece segurança e estabelece limites adequados, a criança consegue, gradualmente, recuperar seu equilíbrio emocional?
É importante compreender que acolher não significa atender a todos os desejos. A criança também precisa experimentar limites e frustrações possíveis de serem elaborados, dentro de relações afetivamente seguras.
Um pequeno roteiro de observação para os pais
Este instrumento pode ajudar a organizar as percepções sobre a criança, sem substituir uma avaliação profissional.
Registro de observações
0 de 9 respostas
1. Frequência e intensidade
O comportamento está acontecendo com maior frequência?
Sim
Às vezes
Não
As reações emocionais estão mais intensas ou duradouras?
Sim
Às vezes
Não
A criança apresenta dificuldade crescente para recuperar a tranquilidade?
Sim
Às vezes
Não
2. Sofrimento e relações
A criança parece triste, ansiosa ou insegura com frequência?
Sim
Às vezes
Não
Suas dificuldades estão prejudicando brincadeiras, amizades ou atividades escolares?
Sim
Às vezes
Não
Perdeu o interesse por atividades de que antes gostava?
Sim
Às vezes
Não
3. Resposta ao acolhimento
A dificuldade permanece mesmo com escuta, acolhimento e limites consistentes?
Sim
Às vezes
Não
A criança depende excessivamente do adulto para se sentir segura?
Sim
Às vezes
Não
Há pouca melhora ao longo do tempo, apesar do apoio recebido?
Sim
Às vezes
Não
Uma consideração importante
Na perspectiva do desenvolvimento socioemocional e da Psicomotricidade Relacional, a pergunta fundamental não é apenas “Por que a criança se comporta assim?”, mas também:
“O que essa criança está tentando comunicar por meio do seu comportamento e de que necessita para sentir-se mais segura, compreendida e capaz de se relacionar?”
Muitas manifestações que parecem apenas desobediência, birra ou dificuldade de adaptação podem estar relacionadas a necessidades afetivas, dificuldades de autorregulação ou desafios próprios do desenvolvimento.
Por isso, a decisão de buscar terapia não precisa depender da existência de um transtorno. Uma avaliação pode ajudar a compreender a criança, orientar a família e identificar possibilidades de cuidado antes que as dificuldades se agravem.







